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sábado, 6 de agosto de 2011

CONTROLE - perder e recuperar

Vez ou outra perco o controle com Pedro. O cansaço é meu argumento... Mas, eu penso ser desnecessário. Preciso ficar mais atenta a mim mesma. Ser mãe, na prática, é isso também, entender que de fato não somos perfeitas e errar faz parte do processo. Identifiquei mais um descontrole, chorei, chinguei, ofendi... me arrependei, pedi perdão e me policio para não fazer mais a mesma coisa. Falo para Pedro: "desculpa a mamãe! eu perdi a paciência porque você fica correndo para lá e para cá, sem parar e essa agitação, esses gritos, toda hora eu falo:'filho, para um pouco. senta, um pouco...' e você fica correndo, sem parar... mamãe errou por não saber te parar, e, por isso, peço desculpas, filho! Peço também que faça a sua parte. Não precisa viver na correria. Tem hora para tudo. Se um amiguinho não quer brincar, você precisa entender e não ficar em cima dele, enchendo o saco..." 

Não é fácil ser mãe - imagino que nunca tenha sido, em tempo algum - porque o desafio maior está em nos conhecermos e conhecermos o filho. Precisamos respeitar as peculiaridades de cada criança, sem deixar de dar o limite.

Evito estimular Pedro com qualquer coisa que seja agitado. Os filmes que ele assiste, seleciono antes. Evito lugares muito agitados, principalmente, festa de adulto - que não é lugar, nem horário para criança -, evito casa de amigos e parentes que despertem essa agitação nele, pela agitação do próprio adulto - que, em muitos casos, são infatis e incapazes de perceber que estão atiçando uma criança e que quando esta reage, se fazem de vítma, dizendo que só estava brincando com a criança e esta não entendeu... Convivo com muitos "adultos" assim... - pois é, uso a "distância saudável" para Pedro, também. Adianta todo um trabalho para formar bem uma criança se algum adulto do meio ensina algo questionável? Por exemplo: fazer cocô de cócoras no vaso sanitário... Quando vi, estava Peu agachado em cima do vaso, se segurando para frente e para trás... Nem vou comentar o que pensei... Mas, o que pensam esses adultos? Já pedi, inúmeras vezes a minha irmã que pare de brincar de bater, de empurrar, de segurar a cabeça de Peu ou qualquer coisa desse tipo. Porque ele fica agitado e quer brincar igual... Graças ao bom Deus, ela, finalmente, tem visto que ele vem melhorando o comportamento e começou a colaborar. É preciso limpar o ambiente para a criança se desenvolver bem. Muitos adultos vivem num mundo teórico e cheio de frases de efeito, cheios de sugestões que alguma pessoa falou, que alguma corrente de psicologia afirma ser correta... e nunca abrem a consciência para a prática. Somos seres complexos e nossos filhos já nasem nesse ambiente complexo, assim como nós nascemos, nossos pais, também, etc. Engana-se aquele que diz: "a educação do meu filho só diz respeito a mim". Por melhor que façamos, nós não somos as únicas referências que eles têm. Até porque também somos imperfeitos e isso quebra as coerências necessárias para a base de uma educação sólida. Quantos pais e mães são presentes na vida dos filhos, sem perceber que não sabe se multiplicar entre eles e, associado a uma característica genética ou de temperamento, os filhos desenvolvem um ciúme grave um do outro e levam isso para a vida inteira? E, aí, os pais dizem: "eu sempre estive ao lado deles..." Mas, nunca se avaliou: como agia com os filhos? Se sentia culpada por dar uma coisa a um e tinha que dar ao outro? Não é fácil, não. Vivemos na luta: nossas, como pessoas e como pais e mães, responsáveis pela educação e formação de caráter de um novo ser. 

Tem horas que precisamos saber e lembrar que somos feitos de carne, osso e dia a dia. Mãe também pode cansar, até da repetição de ser mãe. Todo mundo precisa romper com a rotina para dar aquele gás. Ou, dar uma renovada. Uma revitalizada! O cansaço e a perda de controle me fizeram ver que pouco tenho me dado oportunidade de lazer e de momentos para mim, enquanto pessoa. Muitas mães, de gerações anteriores, não aceitam essa necessidade, porque, para elas, assumir algo assim, vinha uma gama de culpa que as diminuia, então, pensar nisso, nunca! O peso que colocam em cima das mães é desumano. Não fujo à minha responsabilidade como tal, nem quero que ninguém assuma o que eu tenho que estar a frente. Mas, momento a sós é importante para todo mundo: estudante tira férias; trabalhador tira férias... e mãe? Mãe abre mão da, vida, por um tempo, porque é necessário e com prazer. Mas, em algum momento, diante de tanta função acumulada - afinal, ser mãe não descarta o resto de nosso ser, apenas reorganizam a ordem de prioridade -, temos a necessidade de fazer algo individual. Nossa mente precisa de cuidado, para poder dar uma educação coerente para o pequeno ser em formação. 

Tenho me esforçado muito para lidar com o temperamento agitado de Peu e trabalhado cada atividade para ele, com zelo e objetivo. Essa é minha maneira de agir. Dou amor e amor para ele, em forma de carinho e limite, também. Por que o limite é tão temido e tão confundido com limitação? Por que tememos tanto sermos felizes e, com isso, não sabemos passar para os nossos filhos que eles nasceram para isso: ser feliz! Quando perdi o controle, há poucos dias, percebi que muita coisa não está bem resolvida em mim. Vi esse conflito do querer ser feliz e ter aprendido, como todo mundo, a temer esse estado de espírito. Vi que eu, também, não sei ser feliz e me cobro uma perfeição que não tenho. Vi que explodi porque estava cheia e a última gota d´água foi perder a paciência com Pedro, numa festa de criança, com muita agitação e algumas pessoas enchendo o saco... Não estou dizendo que ele não estava prontando - nesse dia ele aprontou e muito - mas, por saber que minha demanda com ele e seu temperatento é muito grande, eu preciso me propor um estilo de vida mais light. Eu preciso estar bem para lidar bem com meu filho e tudo mais na vida. Afinal, nada vai mudar se eu não me esforçar e trabalhar na prática para tanto. Comecei a observar as mães ao meu redor e vejo suas fragilidades estampadas nos filhos. Mas, por eles não serem acelerados como Peu, é possível estabelecer uma zona de conforto... isso me fez ver e agradecer a Peu por ele ser assim: eu estou sempre em movimento - seja caindo ou reerguendo - em busca de uma vida boa, bela e justa. Não posso cair na zona de conforto e, ainda, sou estimulada a todo instante a sair das outras de toda a minha vida. Ou seja, apesar do caminho exaustivo, estou aprendendo a todo instante. Sempre com prova de fogo. Provavelmente, eu disse a Deus que queria uma vida com emoção - risos.

Bom, é isso: eu tenho que estar sempre em alta e, para isso, preciso me cuidar, afinal, é o que minha vida exige de mim - CRESCER!

Cresço junto com meu filho. Humildade é algo que tenho sido obrigada a saber o que quer dizer na prática, haja vista que sou muito julgada, por dar espaço, e o orgulho quer que eu finja ser o que não sou ou não estou ainda. O orgulho atrapalha tudo. Escutar que "meu filho é mais calmo..." Não pode me fazer achar menor... Meu filho é agitado e essa é minha realidade. Para quê vou comparar que além do agito ele tras outras características riquíssimas como simpatia, inteligência, sensibilidade, etc e que essa outra criança mais calma não tem... Dá vontade de listar as qualidade do meu e defeitos do outro - nesse caso, a mãe se queixa da falta de confiança do filho nela... e o menino é calmo... Depois, paro e penso: tenho que observar quem Pedro é. É com ele que lido. Ele é meu filho. Tenho que saber quem eu sou, para saber lidar com quem Pedro é. Há um caminho que nos une e é nele que caminhamos. Não vai me ajudar, em nada, lidar com Peu com quem eu queria que ele fosse... Como fazer para educá-lo assim? Depois de ter perdido o controle nessa festa, onde vi a hora de arrancar meus cabelos de desespero por Pedro não ser uma criança que me permitisse curtir a festa em paz, vi que infelizmente, eu teria que sair e abrir mão de estar num ambiente agitado e conturbado e que isso não é o fim do mundo. Em outras festas ele se comporta bem, nessa, não. E justamente quando eu quero "mostrar" para todos que meu filho é uma coisa que ele não é. Ser obrigada a rever os conceitos vem de várias maneiras. Aceitar, só depende de mim. E o mais difícil não é lidar com Peu e seu temperamento... é lidar com os adultos ao redor que além de não saber ajudar, ainda atrapalham. Então, me firmo em mim: hora de não dar ouvidos a essas pessoas. Porque eu vejo as aparências que querem mostrar e vejo que ao darem suas fórmula de sucesso que não existem, querem mesmo é se convencer de que agem de maneira certa... Ou seja, estão tentando se afirmar. Bom, no dia que entender isso de verdade, com certeza viverei melhor... Bom, meu processo de abrir minha consciência é meu e, lógico, vai incomodar quem não se permite e essas pessoas serão minha prova de fogo. E isso reverbera em meu universo materno, também, afinal, eu sou apenas uma com vários papéis. 

Ser mãe, na prática, é ser uma pessoa em busca de viver e ser uma pessoa melhor na prática, além do que li num livro ou escutei alguém falar. É ver e viver. É ler e viver. É sair do potencial e ir para o real. É SER. Apenas isso. Mas, ser de maneira legal, com verdade na entrega, na devoção, em busca de investigar, tirar aas dúvidas e servir! Quando alguém busca se melhorar e enche o saco dos outros, como ainda faço, é porque ainda não se conscientizou e precisa se auto-afrirmar pelos outros... É isso que eu também preciso superar: meu parâmetro sou eu mesma! A mãe ideal precisa dar lugar a mãe ideal real e isso só é possível me tornando uma pessoa melhor na prática diária da busca constante!

Saudações maternais,

Pat Lins.

terça-feira, 12 de julho de 2011

MEU FILHO, VOCÊ NÃO MERECE NADA - Por Eliane Brum



A crença de que a felicidade é um direito tem tornado despreparada a geração mais preparada
 
Eliane Brum - REVISTA ÉPOCA
 
   Divulgação
ELIANE BRUM
Jornalista, escritora e documentarista.
Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e 
internacionais de reportagem. 
É autora de  
Coluna Prestes – O Avesso da Lenda
  (Artes e Ofícios),
A Vida Que Ninguém Vê
  (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e 
O Olho da Rua (Globo).
E-mail: elianebrum@uol.com.br
Twitter: @brumelianebrum
Ao conviver com os bem mais jovens, com aqueles que se tornaram adultos há pouco e com aqueles que estão tateando para virar gente grande, percebo que estamos diante da geração mais preparada – e, ao mesmo tempo, da mais despreparada. Preparada do ponto de vista das habilidades, despreparada porque não sabe lidar com frustrações. Preparada porque é capaz de usar as ferramentas da tecnologia, despreparada porque despreza o esforço. Preparada porque conhece o mundo em viagens protegidas, despreparada porque desconhece a fragilidade da matéria da vida. E por tudo isso sofre, sofre muito, porque foi ensinada a acreditar que nasceu com o patrimônio da felicidade. E não foi ensinada a criar a partir da dor.

Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios, é fluente em outras línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia. Uma geração que teve muito mais do que seus pais. Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos – bastaria apenas que o mundo reconhecesse a sua genialidade.

Tenho me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação de suas casas – onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece – porque obviamente não acontece – sentem-se traídos, revoltam-se com a “injustiça” e boa parte se emburra e desiste.

Como esses estreantes na vida adulta foram crianças e adolescentes que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, desconhecem que a vida é construção – e para conquistar um espaço no mundo é preciso ralar muito. Com ética e honestidade – e não a cotoveladas ou aos gritos. Como seus pais não conseguiram dizer, é o mundo que anuncia a eles uma nova não lá muito animadora: viver é para os insistentes.

Por que boa parte dessa nova geração é assim? Penso que este é um questionamento importante para quem está educando uma criança ou um adolescente hoje. Nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam “felizes”. Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos e protegê-los de todos os perrengues – sem esperar nenhuma responsabilização nem reciprocidade.

É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais já se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinônimo de fracasso pessoal. Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos compreendam como parte do processo educativo duas premissas básicas do viver, a frustração e o esforço? Ou a falta e a busca, duas faces de um mesmo movimento? Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com os limites tanto de sua condição humana como de suas capacidades individuais?

Nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O valor está no dom, naquilo que já nasce pronto. Dizer que “fulano é esforçado” é quase uma ofensa. Ter de dar duro para conquistar algo parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. Bacana é o cara que não estudou, passou a noite na balada e foi aprovado no vestibular de Medicina. Este atesta a excelência dos genes de seus pais. Esforçar-se é, no máximo, coisa para os filhos da classe C, que ainda precisam assegurar seu lugar no país.

Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforço, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia e, como percebo em muitos jovens, uma espécie de traição ao futuro que deveria estar garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a felicidade é um direito. E a frustração um fracasso. Talvez aí esteja uma pista para compreender a geração do “eu mereço”.

Basta andar por esse mundo para testemunhar o rosto de espanto e de mágoa de jovens ao descobrir que a vida não é como os pais tinham lhes prometido. Expressão que logo muda para o emburramento. E o pior é que sofrem terrivelmente. Porque possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não têm o menor preparo para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações – e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer.

A questão, como poderia formular o filósofo Garrincha, é: “Estes pais e estes filhos combinaram com a vida que seria fácil”? É no passar dos dias que a conta não fecha e o projeto construído sobre fumaça desaparece deixando nenhum chão. Ninguém descobre que viver é complicado quando cresce ou deveria crescer – este momento é apenas quando a condição humana, frágil e falha, começa a se explicitar no confronto com os muros da realidade. Desde sempre sofremos. E mais vamos sofrer se não temos espaço nem mesmo para falar da tristeza e da confusão.

Me parece que é isso que tem acontecido em muitas famílias por aí: se a felicidade é um imperativo, o item principal do pacote completo que os pais supostamente teriam de garantir aos filhos para serem considerados bem sucedidos, como falar de dor, de medo e da sensação de se sentir desencaixado? Não há espaço para nada que seja da vida, que pertença aos espasmos de crescer duvidando de seu lugar no mundo, porque isso seria um reconhecimento da falência do projeto familiar construído sobre a ilusão da felicidade e da completude.

Quando o que não pode ser dito vira sintoma – já que ninguém está disposto a escutar, porque escutar significaria rever escolhas e reconhecer equívocos – o mais fácil é calar. E não por acaso se cala com medicamentos e cada vez mais cedo o desconforto de crianças que não se comportam segundo o manual. Assim, a família pode tocar o cotidiano sem que ninguém precise olhar de verdade para ninguém dentro de casa.

Se os filhos têm o direito de ser felizes simplesmente porque existem – e aos pais caberia garantir esse direito – que tipo de relação pais e filhos podem ter? Como seria possível estabelecer um vínculo genuíno se o sofrimento, o medo e as dúvidas estão previamente fora dele? Se a relação está construída sobre uma ilusão, só é possível fingir.

Aos filhos cabe fingir felicidade – e, como não conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, já que estas são as mais fáceis de alcançar – e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma mentira porque a sentem na própria pele dia após dia. É pelos objetos de consumo que a novela familiar tem se desenrolado, onde os pais fazem de conta que dão o que ninguém pode dar, e os filhos simulam receber o que só eles podem buscar. E por isso logo é preciso criar uma nova demanda para manter o jogo funcionando.

O resultado disso é pais e filhos angustiados, que vão conviver uma vida inteira, mas se desconhecem. E, portanto, estão perdendo uma grande chance. Todos sofrem muito nesse teatro de desencontros anunciados. E mais sofrem porque precisam fingir que existe uma vida em que se pode tudo. E acreditar que se pode tudo é o atalho mais rápido para alcançar não a frustração que move, mas aquela que paralisa.

Quando converso com esses jovens no parapeito da vida adulta, com suas imensas possibilidades e riscos tão grandiosos quanto, percebo que precisam muito de realidade. Com tudo o que a realidade é. Sim, assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem. Não é complicado porque você vai ter competidores com habilidades iguais ou superiores a sua, mas porque se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza de chegada. É viver com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que a gente vira gente grande.

Seria muito bacana que os pais de hoje entendessem que tão importante quanto uma boa escola ou um curso de línguas ou um Ipad é dizer de vez em quando: “Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua”. Assim como sentar para jantar e falar da vida como ela é: “Olha, meu dia foi difícil” ou “Estou com dúvidas, estou com medo, estou confuso” ou “Não sei o que fazer, mas estou tentando descobrir”. Porque fingir que está tudo bem e que tudo pode significa dizer ao seu filho que você não confia nele nem o respeita, já que o trata como um imbecil, incapaz de compreender a matéria da existência. É tão ruim quanto ligar a TV em volume alto o suficiente para que nada que ameace o frágil equilíbrio doméstico possa ser dito.

Agora, se os pais mentiram que a felicidade é um direito e seu filho merece tudo simplesmente por existir, paciência. De nada vai adiantar choramingar ou emburrar ao descobrir que vai ter de conquistar seu espaço no mundo sem nenhuma garantia. O melhor a fazer é ter a coragem de escolher. Seja a escolha de lutar pelo seu desejo – ou para descobri-lo –, seja a de abrir mão dele. E não culpar ninguém porque eventualmente não deu certo, porque com certeza vai dar errado muitas vezes. Ou transferir para o outro a responsabilidade pela sua desistência.

Crescer é compreender que o fato de a vida ser falta não a torna menor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo se sentindo injustiçado porque um dia ela acaba.

(Eliane Brum escreve às segundas-feiras, na Revista Época)

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